São Luiz: ontem e hoje

Cinema completou seis décadas de existência em 2012. Foto: Caroline Melo.

O mistério na Avenida Manoel Borba, 709

Moradora de rua da Boa Vista tem sua vida contada pela ótica dos vizinhos. Foto: Diario de Pernambuco.

Padre Cícero da Boa Vista

Conheça a trajetória do pároco da Igreja Matriz. Foto: Júlio Rebelo.

"Tudo lindo"

Rua da Conceição é célebre pelas lojas que vendem móveis antigos. Foto: Amanda Melo.

Redescobrindo a Boa Vista

Marcela de Aquino assina série de reportagens sobre história do bairro.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Maciel Pinheiro renasce às custas de marginalização

Cercas que protegiam jardins foram retiradas, assim como moradores de rua que ocupavam a praça

por Igor Nóbrega

  Praça está limpa e com bancos livres novamente / Foto: Igor Nóbrega


O Cenário na Praça Maciel Pinheiro, no bairro da Boa Vista, área central do Recife, está bastante diferente daquele que os passantes da área já estavam acostumados a ver nos últimos meses. Cercada por tapumes e ocupada por moradores de rua, agora já se pode ver os jardins bem cuidados, a fonte limpa e os bancos livres. O ambiente parece mais agradável e seguro para os trabalhadores e comerciantes da região, que agora podem aproveitar o espaço público com mais tranqüilidade. Apesar do aparente cenário de equilíbrio, uma população foi mais uma vez escanteada: a dos sem teto e usuários de drogas.

Marginalizados, homens, mulheres e crianças – muitos deles usuários de drogas – parecem estar proibidos de ter acesso à praça. Eles agora se concentram em duas ruas que circundam a área: a rua do Veras, um beco estreito por onde poucos passam; e o fim da rua da Conceição, onde fica a maioria deles, atrás das barracas de lanches e perto da saída do estacionamento do Atacadão dos Presentes. Quem garante que os moradores de rua não voltem à Maciel Pinheiro são três seguranças particulares contratados por comerciantes da região. É o que conta o engraxate Fernando Paulo Evaristo, 55 anos de vida e 34 de Maciel Pinheiro.

“Graças a Deus esses meninos estão tomando conta da praça e tiraram os maloqueiros daqui, porque na época que eles ‘tavam’ aqui, não tava vindo turistas, os taxistas não ‘tavam’ ganhando dinheiro. Melhorou depois que as lojas se juntaram e contrataram seguranças particulares. O pessoal tomava banho ali, fazia sexo, lavava roupas íntimas, fazia as necessidades. Teve uma reunião entre os comerciantes e decidiram contratar a segurança particular. Não foi Governador, não foi Prefeito, foi ninguém não... foi o pessoal daqui mesmo. ‘Tá’ vindo jardineiro todo dia também, pra cuidar das plantas. Melhorou 100% não... melhorou 300%!”, conta Fernando, que estava ao lado dos seguranças e parece já ter feito amizade com eles.

De acordo com a Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), as telas de proteção que cercavam os jardins foram retiradas no dia 31 de março. Desde então, segundo duas frequentadoras assíduas da praça, os seguranças começaram a “tomar conta” do local e decidir quem tem ou não acesso a ele. “Os trombadinhas podem entrar sem a garrafa de cola. Se tiver com a garrafa de cola, eles (os seguranças) mandam sair”, diz Maria da Conceição Barros, de 39 anos.

A vendedora aprova a mudança por qual passou a Praça Maciel Pinheiro. “Antes era colchão no caminho, os bancos eram tomados por eles deitados, fumando, cheirando, perturbando, jogando pedra na gente, quer dizer... um no outro, mas atingia quem estava sentado nos bancos da praça. Agora ‘tá’ bem mais seguro, a gente pode até dar uma cochilada (risos). E agora tem gari também. Antes nada era limpo aqui, agora sim... agora todo mundo pode sentar, ‘tá’ bem melhor”, aprova Maria da Conceição. A Praça Maciel Pinheiro, patrimônio da Boa Vista, parece finalmente estar sendo bem cuidada. Resta saber quando essa população marginalizada receberá o devido auxílio, tanto por parte da iniciativa privada, quanto das instituições governamentais.


Raul Kawamura e a Boa Vista: histórias e fotografias

por Robson Gomes

Raul Kawamura: filho de japonês, nascido em João Pessoa, morador da Boa Vista /
Foto: Raul Kawamura/Facebook

Se tem uma coisa que temos aprendido bastante no nosso processo de formação jornalística é como ter feeling para encontrar uma boa história pra contar, com um personagem representativo. E para isso é preciso correr atrás, pesquisar, sondar, apurar... Uma tarefa árdua, difícil e, porque não, desgastante. Principalmente quando o famoso deadline ameaça vorazmente a sua produção. Na correria do dia, e na dificuldade de estabelecer um contato, apelamos para as redes sociais, que têm se mostrado um grande aliado na busca dessas pessoas que podem nos auxiliar na redação de uma boa pauta.
            
Para chegar ao meu entrevistado, um site de busca foi o meu primeiro aliado. Procurando com  expressões chave como “curiosidades boa vista recife”, “curiosidades culturais boa vista recife” e variantes, encontrei uma notinha de uma exposição fotográfica sobre os principais pontos do centro do Recife já encerrada há quatro meses, mas um elemento em especial chamou a minha atenção: “Morador da Boa Vista...” Bingo! Encontrei um cara que fez uma exposição de fotos com o bairro da Boa Vista e ele ainda mora por lá? Eis a minha eureka! Mas ao ficar feliz em encontrar o elemento interessante para ser minha pauta, na hora a preocupação surgiu: como encontrá-lo?
    
O problema teria solução cerca de um minuto depois quando, ao digitar o nome dele no Facebook, o encontrei sem nenhuma grande dificuldade. Na hora, mandei uma mensagem inbox, na qual só tive respostas mais de 24 horas depois, mas positiva. Estava definido: iria entrevistar o designer gráfico, fotógrafo, produtor cultural e professor de karatê, Raul Kawamura.

O "escritório" de Raul / Foto: Raul Kawamura/Facebook
O lugar marcado para a sua entrevista foi o seu escritório. E daí a primeira surpresa. É impressionante como certas palavras nos passam certas impressões. Quando se fala em escritório, imagina-se um lugar morto, com bancadas e cadeiras, cercado de papeis e gente estressada. Definitivamente, não foi esse cenário que eu encontrei no escritório de Raul. Localizado na agitada Rua Dantas Barreto, mergulhei na tranquilidade de um enorme ateliê localizado no nono andar do Edifício Pernambuco. Em vez de birôs velhos, encontro mesas modernas. Em vez de cadeiras, encontro redes. Em vez de muitos papeis, me deparo com telas de pintura. Além disso, o lugar era arborizado pelas janelas que quase circundam todo o espaço. E em vez de gente estressada encontro os amigos de Raul (desde a faculdade de Design) que dividem o “escritório” com ele.
    
Comecei a entrevista fazendo uma pergunta óbvia, mas necessária já que estava o conhecendo naquele momento. Perguntei sobre seus traços orientais e se ele havia nascido no Recife, a resposta não podia ser mais surpreendente: “Não. Eu nasci em João Pessoa e meu pai é japonês. Ele tem uma escola de artes marciais na Rua do Sossego há quase 30 anos. O sobrenome Kawamura vem por parte de pai”, justificou.
   
Formado em Design Gráfico pela UFPE no ano de 93, perguntei como ele conciliava os ofícios de designer, fotógrafo, produtor cultural e professor de karatê: “São profissões bem diferentes. O karatê é para aliviar o estresse do trabalho, e é uma forma de voltar para mim mesmo. Gosto muito de praticar e ensinar, porque é ensinando que a gente aprende. Fazer atividades diferentes é muito saudável, até para gente se desprender um pouco dos outros trabalhos, além de aumentar o ciclo de amizades. Tenho tempo pra tudo”, garantiu ele, que fica boa parte do dia no ateliê e duas vezes por semana leciona karatê na academia do pai.
   
Sobre a exposição “Recife em Retratos” – a razão que me levou a conhecê-lo – ele contou que sempre quis executar esse projeto: “mas eu morava muito longe, em Jardim Atlântico”, comentou. Mas mesmo assim, Raul mantinha contato com o bairro da Boa Vista comprando livros sobre este bairro e sobre fotografia nos sebos (lojas informais de livros usados). No ano de 2004, quando chegou para morar no bairro da Boa Vista, o projeto foi finalmente posto em prática: “Sempre tive interesse no bairro da Boa Vista porque é um bairro antigo, onde Recife cresceu. No caminho da academia do meu pai, na infância e adolescência, circulei por boa parte deste bairro. Desde então, eu sempre quis rever esses caminhos e explorar os desconhecidos”, colocou.
    
Durante três anos, com apenas uma câmera digital, Raul ficava atento às construções antigas, aos casarões, galpões abandonados, construções de luxo que hoje se tornaram cortiços, sempre em busca desses resquícios de antigamente na Boa Vista e nos bairros vizinhos. Além desses elementos concretos, uma textura, uma forma geométrica, uma combinação também o inspirava a fazer uma foto. 
   
Como as redes sociais ainda não eram a febre de hoje em dia, ele postava as suas fotos num blog, sempre bem frequentado e comentado. “Foi quando um amigo meu que trabalha no CCBA [Centro Cultural Brasil-Alemanha] sugeriu que eu expusesse as fotos”, completou. A iniciativa do amigo originou a exposição que ficou em cartaz entre os meses de outubro e dezembro de 2012 neste mesmo Centro Cultural: “Deu muito trabalho, mas o pessoal do CCBA deu todo o suporte”, garantiu Raul. Indagado se a exposição foi um sucesso, ele comemorou: “Eu fiz toda a divulgação pelo Facebook e fiquei impressionado porque veio muita gente. Foi um saldo muito positivo. Uma pessoa de assessoria divulgou a exposição na imprensa. Mas o ‘Face’ foi fundamental nessa divulgação”.
    
E se ele pudesse resumir toda a exposição “Retratos do Recife” em apenas uma foto? A resposta de Raul foi categórica: “Tem uma foto da Guararapes que tem um cartaz azul grudado na parede de um fiteiro. Nesse cartaz tem escrito: ‘Vá em Frente, apaixone-se’. Gosto da imagem por causa das cores, da mensagem e do local”, concluiu.

A foto escolhida por Kawamura para resumir a exposição "Retratos do Recife" / Foto: Raul Kawamura/Diario de Pernambuco

Atualmente, Kawamura já está envolvido num novo projeto de fotografia, chamado “Recife Noturno”. Todas as noites, ele sai de bicicleta tirando fotos de ruas estranhas nos arredores da Boa Vista, em lugares que não tem gente. Neste início de trabalho, as fotos estão sendo tiradas com o celular, mas posteriormente pretende-se fazer com câmeras grandes, tripés, de forma mais profissional. Quem quiser conferir este trabalho, basta acompanhar o seu Facebook pessoal – sua principal vitrine atualmente – ou seguir @raulkw no Instagram, pois já tem fotos no ar.
       
A tarde começava a se despedir no Recife quando perguntei a Raul o que a Boa Vista representa para a sua vida cultural: “Primeiro porque é o lugar onde o meu pai possui a academia há quase 30 anos atrás. E depois, a Boa Vista é um dos bairros onde o Recife começou, junto com Santo Antônio, São José, Recife Antigo... Aqui tem elementos arquitetônicos e urbanísticos originais da cidade de antigamente. Além de ter essa memória afetiva de andar muito por aqui quando era criança”, enfatizou.
            
O espírito jovial e tranquilo que move esse designer de 48 anos, morador da Rua do Progresso, é admirável, mas não é surpresa para o próprio Raul: “No Japão é muito comum os guerreiros que praticam artes marciais desenvolver um tipo de arte para equilibrar as energias”, declarou. E foi na loucura do centro da cidade que o meu lado guerreiro de ir em busca de uma matéria se harmonizou ao me deparar com a simplicidade da arte, através desse olhar apurado e sensível sobre a Boa Vista de Raul Kawamura. 

LINKS:
Veja algumas fotos da exposição "Recife em Retratos" publicado no Diario de Pernambuco: http://bit.ly/154caMC
Facebook Oficial Raul Kawamura: https://www.facebook.com/raulkw
Instagram: @raulkw
Vídeo com todas as fotos da exposição "Recife em Retratos": http://bit.ly/12J1F0D

Conde da Boa Vista é palco de protestos



No mês de janeiro de 2013, o bairro da Boa Vista foi cenário das manifestações contra o aumento das passagens de ônibus. Mais de cem estudantes se concentraram na Rua do Hospício e seguiram até o edifício sede do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), na Rua do Imperador, onde entregaram uma pauta com cinco reivindicações para a procuradora geral da Justiça em exercício, Laís Teixeira. Os manifestantes questionaram o aumento das tarifas, a qualidade do transporte público e apontam que a reunião do Conselho Superior de Transporte Metropolitano ocorreu sem ampla divulgação nos meios de comunicação, além de que é ínfima a representação do movimento estudantil no Conselho. Das 19 cadeiras, apenas uma é destinada aos estudantes.

O reajuste foi de 5,340%, percentual proposto pelo Grande Recife Consórcio de Transporte com base no Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA), frente  ao Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros de Pernambuco (Urbana-PE), que propôs aumento de 13%. O preço do Anel A subiu de 2,15 para 2,24; o anel B, de R$ 3,25 para R$ 3,45; o anel D, de R$ 2,60 para R$ 2,75; e o anel G, de R$ 1,40 para R$ 1,50.  




Apesar do movimento não ter conquistado a diminuição da tarifa, Bruna Wanderley, membro integrante do DA de Direito da Universidade Católica de Pernambuco, enfatiza a importância de se manifestar nas ruas e do acúmulo de mobilizações: “Apesar da clareza de que certas situações são de difícil reversão, demonstrar opinião e insatisfação em relação a determinado fato é de extrema importância, visto que os movimentos sociais tem também um caráter denunciativo. A maioria dos movimentos sociais tem a consciência de que a real mudança é fruto não só de um ato de rua mas a partir do acúmulo de mobilizações”.

Em janeiro de 2012, houve um reajuste de 6,5% decidido em reunião do Conselho Superior de Transporte Metropolitano. Após a decisão, três passeadas foram organizadas, chegando a agregar mais de 1.500 manifestantes que ocuparam a Avenida Conde da Boa Vista. Recebidos com êxtase pelos moradores dos entornos, entre gritos de apoio e papeis picados, os estudantes caminharam a fim de conquistar melhorias no sistema de transporte coletivo e o cancelamento do reajuste.

Por Marcela Lins e Pethrus Tibúrcio

Homens e mulheres lutam "pelo direito de decidir"


Ao longo dos anos e depois da última tomada de fôlego dos movimentos sociais, o bairro da Boa Vista já é reconhecido como passarela de protestos e marchas que, independente da bandeira, encontram no bairro o melhor local para sustentar ideias e apresenta-las para a sociedade civil.
Um dos movimentos que tem levado centenas de homens e mulheres para o bairro da Boa Vista é a Marcha das Vadias. O movimento, chamado internacionalmente de Slutwalk, estourou no início de 2011, no Canadá. O depoimento que deflagrou em uma série de marchas em diversos países surgiu do policial Michael Sanguinetti, que sugeriu que as mulheres “se vestissem menos como vadias” para que evitassem uma série de estupros que aconteceu na Universidade de Toronto. A tentativa de responsabilizar as vítimas e mulheres em geral fez nascer o primeiro protesto, na mesma região, que levou mais de três mil pessoas às ruas. No Brasil, os protestos já aconteceram em mais de vinte cidades.
Na última edição, em maio de 2012, mais de mil pessoas desfilaram pelo centro da cidade. Cartazes de “um não é um não!”, “meu corpo é meu” e “pelo direito de decidir” defendiam a tese de que o culpado é sempre o agressor e que a mulher não pode nunca ser responsabilizada pela violência sofrida. Em sua primeira edição no Recife, a nossa Slutwalk acontecia no mesmo dia da Marcha pela Família, ilustrando a afirmação de Gigi Brander, do grupo de teatro feminista Loucas da Pedra Lilás, que disse que “é o moralismo e o fundamentalismo religioso que impede a construção de uma sociedade menos machista”.
Dia 25 de maio é a próxima data para o que parece que virou uma tradição em cidades do mundo todo. Nesta data, saindo da Praça do Derby, homens e mulheres de Recife se reúnem pra lutar pelo respeito ao direito de ser mulher. Para a próxima edição da Marcha das Vadias, cerca de 300 pessoas já confirmaram presença em um evento do Facebook. No próximo dia 4 de abril, às 19h, interessados se reúnem no SOS Corpo, na Madalena, em uma “Reunião Organizativa”. Além disso, debates preparatórios para discutir, por exemplo, “Feminismo e Juventude” acontecerão até a realização da marcha. O tema será abordado por Carmem Silva e Hulda Stadtler no próximo dia 18, às 15h, na Universidade Rural Federal de Pernambuco. Nos dias 29 e 30 de abril, a SOS Corpo também organiza o curso Feminismo Materialista Francófono, ministrado por Jules Falquet, feminista e docente em Sociologia na Universidade Paris Diderot.
Depois de dois anos do episódio que deflagrou na Marcha das Vadias, o protesto não perdeu relevância. “Acho que esse tipo de evento reforça uma luta que é de extrema importância pra democracia. É um evento muito democrático e libertador, uma vez que direitos não só das mulheres estão sendo defendidos, mas de uma parcela enorme que acaba não tendo voz muitas vezes”, diz a estudante Gabriella Autran, que esteve presente em todas as edições.

Por Marcela Lins e Pethrus Tibúrcio

Os problemas do caminho

RUA GERVÁSIO PIRES - Pinos de ferro na calçada machucam pedestre



É na Conde da Boa vista, às duas da tarde, no sol quente, que começamos nossa jornada pelas calçadas. Tem sujeira, buraco, carrinho de feira e pino de ferro fixo. Tem fiteiro, estacionamento irregular e raízes de árvores. E tem também gente, muita gente. No meio disso tudo o que menos tem é calçada.

O problema da mobilidade urbana é, antes de tudo, um problema para o pedestre, e consequentemente, um problema das calçadas. O modo como nos movemos pela cidade pode dizer muito sobre o modo como funcionamos coletivamente. É assim que podemos ver o desprezo pelas calçadas e sempre a preocupação em enlanguescer as ruas, construir viadutos, detonar casas e mangues para ocupá-los com novas vias.

Como todos os centros brasileiros, o do Recife é um lugar de movimento contínuo. Quem anda na Boa Vista tem que olhar bem por onde anda, até mesmo quando as calçadas são bem conservadas. Foi na rua Gervásio Pires que, segundo duas testemunhas, um deficiente visual caiu após esbarrar nos pinos de ferro que ocupavam a calçada do Hotel Mediterrâneo. De acordo com Bruna Cristina, que trabalha no fiteiro próximo ao hotel há três anos, e com uma segunda testemunha que não quis se identificar, o homem teria machucado o nariz e quebrado os dentes da frente.  Segundo as testemunhas, o dono do Hotel colocou os pinos nas calçadas para poder estacionar seus carros e cercá-los com corrente.

Os pinos no meio da calçada do Hotel Mediterrâneo: invasão do espaço dos pedestres.
Havia mais dois na frente do Hotel. Fotos: Moema França
Para a legislação atual, são três os responsáveis pela construção, manutenção e recuperação das calçadas em Recife: o município, o proprietário e o ocupante do imóvel. A responsabilidade recai na prefeitura apenas nos casos em que as calçadas estão em frente a rios, lagoas, em praças, parques, imóveis públicos, rampas nos cruzamentos de travessia sinalizadas, etc. No restante dos casos, cabe ao dono e ocupante do imóvel que tomem as devidas providências. Ao mesmo tempo, a legislação também explica que não é permitido obstáculo que impeça o livre trânsito dos pedestres.

Para Bruna, ele (o dono do Hotel) “usa a calçada como se fosse dele e às vezes coloca um cavalete no meio da rua. Os carros tem que desviar.” Sobre o acidente que machucou o deficiente visual, o proprietário do hotel prestou socorro, mas não quis falar sobre o assunto. Voltamos lá uma semana depois e os pinos de ferros haviam sido retirados. O Hotel ainda não deu retorno.

Confira galeria de fotos das calçadas da Boa Vista no Flickr.



 Pequeno vídeo mostrando a dificuldade diária dos pedestres em andar pelas calçadas da Rua da Soledade em frente ao Posto do VEM.

MAMAM: mais um espaço cultural prejudicado pelas mudanças de gestão


por Kácia Guedes

Teatros fechados. Museus fechados. Não é novidade a morosidade dos procedimentos burocráticos dos órgãos públicos quando há mudanças na gestão. São meses para regulamentar as diretrizes e recomeçar o trabalho. Essa é a situação atual da cidade do Recife, especificamente no bairro da Boa Vista, pelo menos nos departamentos relacionados à área de cultura.

O Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), localizado na Rua da Aurora, nº 265, no bairro da Boa Vista, está há dois meses sem exposições devido à transição para a nova gestão da Prefeitura do Recife. 

Mural de Francisco Brennand localizado no pátio do museu / Foto: Caroline Melo 

A diretora Beth da Matta, recém-nomeada para o cargo, comentou um pouco das dificuldades sobre a reabertura do espaço cultural. “Eu já elaborei um projeto institucional, mas a gente não iniciou o trabalho ainda. Tenho uma exposição para abrir, mas estamos esperando ligar o motorzinho da máquina para começar a correr”, explicou da Matta. Ela comenta ainda que tal permissão precisa ocorrer antes de maio, devido ao tempo que é necessário para montar uma exposição e apresentá-la ao público. 

Beth ainda destaca que essa demora também provém do desafio que é para a área de cultura organizar o carnaval do Recife. “A cultura passa por um grande teste com o carnaval e isso faz com que o processo fique mais lento com a retomada das políticas e suas linguagens”, afirmou.
Beth da Matta  destaca a influência do espaço para o bairro da Boa Vista / Foto: Kácia Guedes

De acordo com a diretora, as instituições que sofreram essa breve paralisação devido à mudança de gestão estão voltando a funcionar de forma gradual. “Ainda tem equipamento que não tem diretor. Acho que o teatro Dona Lindu ainda não tem, o teatro Santa Isabel também está sem diretor. Infelizmente é um novo partido que entrou então tem todo um início a ser cumprido”, afirmou da Matta. 

Quando questionada se a nova gestão melhorará os incentivos culturais na cidade, Beth afirmou que a sua permanência na instituição é justamente para tentar garantir tal feito. “Garantir a retomada de um projeto institucional, um orçamento mínimo para a gente trabalhar. Na gestão anterior tivemos muitas exposições, recebemos itinerâncias importantes, mas a gente não pôde executar um projeto institucional, uma coisa nossa, a partir do ponto de vista local, a partir das nossas experiências e vivências”, relatou a diretora.

Em relação às responsabilidades que são divididas entre o instituto e a prefeitura, Beth afirmou que do Mamam dependem basicamente a capacidade de articulação e de realização dos eventos, exposições. A Secretaria de Cultura, por sua vez, se responsabiliza pelo repasse dos recursos. 

Outro resultado da mudança de gestão foi a diminuição do quadro de funcionários da administração do museu. Passaram de onze empregados para nove, sendo que quatro ainda serão nomeados. 

Espaço do museu destinado às exposições / Foto: Kácia Guedes 

CURIOSIDADES - De acordo com o site Pernambuco.com, a instituição foi criada em 24 de julho de 1997, é o Patrimônio predial e histórico de Pernambuco. Possui ao todo uma área construída de 1.800m2, divididos em três pavimentos de madeira, sendo 400m² destinados às exposições, segundo a diretora da instituição Beth da Matta. Apesar da falta de exposição, a biblioteca do museu está aberta, assim como a unidade do Mamam localizada no Pátio de São Pedro – e com exposições.

Juventude Estudantil da Torre (Jet)

Por Marina Didier 


Clubes podem ser espaços onde pessoas se encontram, se divertem, locais para conversar com amigos ou simplesmente para relaxar em dias de domingo com a família. Assim são descritos os clubes de campo, de dança, de futebol, ou de qualquer tipo de interesse. Basta apenas pessoas se reunirem e se associarem com determinado objetivo em torno de alguma atividade ou assunto de interesse comum. Os clubes também costumam ter vida movimentada, durante o dia e à noite. 
Pelada de terças à noite no Jet Clube/Foto: Marcela Pereira


Jorge Buarque em forma aos 63 anos/Foto: Marcela Pereira




No bairro da Boa Vista, mais especificamente na Rua Edmundo Bittencourt, há um clube pouco conhecido na cidade. Pequeno, mas cheio de histórias. A Juventude Estudantil da Torre (Jet) foi fundada em 1939, inicialmente no bairro da Torre, como o nome pode ser notado no nome, e por questões de permuta, teve o terreno trocado pelo atual, localizado na Boa Vista, que na concepção de Jorge Buarque, 63, "Foi uma mudança para melhor! Todos morávamos ou estudávamos na B. Vista, assim ficava fácil aproveitar o espaço". Assim, o clube nasceu numa época em que a Bolsa de Nova York quebrava e cabeças mudavam. De pai para filho, de avô para neto, o clube sempre permaneceu um ambiente familiar e amigável, onde partidas de futebol de salão, sinuca, dominó e totó eram jogados semanalmente. Jorge, sócio e diretor do Jet, frequenta o clube há 50 anos, e conta que na época em que era adolescente todos saíam para brincar na rua. Atualmente, ele mora em Boa Viagem, mas não deixa de ir ao clube toda terça e domingo. Todo último domingo do mês, os sócios se reúnem para festejar os aniversários do mês. Levam suas esposas, filhos e filhas para compartilhar desse momento.


Jorge Buarque não deixa de participar das "peladas" /Foto: Marina Didier














O Jet é um clube dirigido por um grupo de amigos que gerencia, cada um, da forma que pode, a administração das atividades realizadas no local. Outros grupos de amigos utilizam o espaço da quadra de futsal durante outros dias da semana. Paulo Ferro, 50, também é diretor e joga há 33 anos, ele explica "A quadra foi o início de tudo, depois o clube se expandiu. A parte mais nova é a da piscina". Contribuições voluntárias dos "sócios" são responsáveis pela manutenção do clube. A sociedade funciona de maneira bastante restrita, a pessoa precisa ser convidada por um sócio para poder fazer parte do grupo. 

Para Paulo Ferro, o Clube é motivo de orgulho no bairro/Foto: Marcela Pereira







Escolas próximas alugam o espaço para o exercício da atividade física. O Clube já lançou famosos jogadores, como o goleiro da seleção brasileira de futsal, Tomás, o jogador do Náutico, Richard, além de Gabriel Ferro, filho de Paulo e jogador do Sport.